Arquivo: Edição de 04-02-2010
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SECÇÃO: Sociedade |
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O mais premiado poeta português Aníbal Nobre dá vida à Academia que evoca o nome de seu pai
Apesar de não participar nos concursos promovidos pela Academia Antero Nobre de que é fundador e presidente da Direcção, é o mais premiado de todos os poetas portugueses com 1.882 prémios e cerca de 800 mais que o segundo, Baptista Coelho, de S.Domingos de Rana com 1.150
Em entrevista aquando da cerimónia da entrega dos prémios dos Jogos Florais do Algarve, em Silves, revelou-nos algum desencanto quanto à forma como é tratado no Algarve, o que o fez mudar a sua residência para Porto de Mós. a Avezinha – É um dos participantes nos Jogos Florais do Algarve organizados pelo Racal Clube. Quantos prémios já ganhou nas várias participações? Aníbal Nobre – Tive 20 participações. Fui o primeiro e único a ser premiado na 1ª edição e no último concurso. Este ano tive onze prémios e tenho 204 no total, só no Racal. Ao todo são cerca de 1900 prémios ganhos nas várias participações em diversos concursos no Brasil, Espanha, Angola, Moçambique, Guiné e França onde tive um 3º lugar em contos juvenis ilustrados. a A – A Academia Antero nobre teve um papel importante no Algarve e por várias razões foi transferida para Porto de Mós. Esse facto fez aumentar o número de membros. A.N. - A Academia foi iniciada com 120 membros e os estatutos não prevêem mais sócios. Fez 12 anos a 9 de Dezembro e já organizámos o 12º Concurso Literário. O nome desta Academia nasceu porque no dia do funeral do meu pai o presidente da Câmara de Olhão e a professora Leonete Biker sugeriram dar o nome de Antero Nobre a uma associação que ia nascer mas com outro nome que era a Associação de Poetas e Prosadores. Como é de âmbito nacional e internacional pode estar em Olhão, Porto de Mós ou em qualquer outro sítio onde esteja o presidente da Direcção. a A – Houve um certo desencanto porque não foi acarinhado em Olhão como tem sido noutros lugares do país? A.N. - De facto, assim é. onde eu estou agora, após 4 meses, deram-lhe o nome a uma rua, além de todos os apoios e a Câmara da Batalha já editou dois livros. A Academia é muito considerada e eu sou também muito considerado, felizmente. a A – A vossa casa em Porto de Mós é um autêntico museu da poesia.
A minha casa funciona como um museu
A.N. - Não é só poesia. Gosto muito mais de prosa e onde sou premiado mais é no conto. Proporcionalmente tenho mais primeiros prémios do que nos outros onde tenho muitas menções honrosas. A minha casa de facto funciona quase como um museu com cerca de 1900 prémios expostos em vitrines e paredes. a A – Tem visitas habituais nesse autêntico santuário das letras? A.N. - Não muitas, mas por exemplo o presidente da Câmara da Batalha esteve lá quando me entrevistaram para a rádio local e foi lá também o jornal da Batalha. Ficaram surpreendidos pois o meu museu é muito maior que qualquer museu distrital. A Casa Museu da Fundação Mário Soares que é nas Cortes tem menos objectos que a minha. a A – O Aníbal Nobre tem como referência o seu pai Antero Nobre e quando a Academia com o seu nome é tão prestigiada e reconhecida, faz lembrar-lhe que o seu pai devia ter sido mais acarinhado?
O meu pai foi pouco acarinhado em Olhão
A.N. - Tenho a certeza que o meu pai foi muito mal acarinhado na sua terra, Olhão. O monumento foi adiado muitas vezes e vieram pessoas de fora no dia em que o presidente da Câmara de Olhão em sessão solene garantiu que o monumento iria ser feito numa data. as pessoas chegaram cá e não havia monumento. Teve que ser feito depois em Moncarapacho que é a sua terra natal. Eu próprio sou mais acarinhado noutras terras. Sou o mais premiado autor português, tenho o dobro dos prémios do 2º mais premiado em Portugal que é o Baptista Coelho, o 3º é o Palma Rodrigues e o 4º é a Lurdes Fatal Canteiro. Sou completamente ignorado o que me dá até algum gozo, pois lá onde vivo sou muito considerado, felizmente. Nós organizamos o maior concurso literário da língua portuguesa. O deste ano o 12º Concurso com o apoio da Câmara da Batalha recebeu 3 mil e setecentos trabalhos vindos de países dos 5 continentes. É tudo em língua portuguesa com a colaboração de consulados e embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo. Houve trabalhos da Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Bélgica, Suíça, Luxemburgo, Angola, Israel, etc. A quadra popular era dedicada à Batalha, recebemos só nesta modalidade mil e tal quadras, mais do que qualquer outro concurso em Portugal recebe em todas as modalidades. Só mesmo o Racal nos seus melhores anos nos Jogos Florais se aproxima destes números. A projecção que esta associação tem é quase inatingível. Temos 123 livros editados de 70 autores diferentes, incluindo poetas e prosadores, de contos, poesias, ensaios e técnicos. Eu faço a composição e, por vezes, o prefácio. Já fizemos 11 saraus de poesia, 2 em Marselha, 2 exposições de pintura, escultura, artesanato, portanto uma actividade intensa. a A – Não passa pela mente, regressar ao Algarve? A.N. - Mantenho casa em Faro e só não estou mais tempo cá porque no sítio onde vivo é um pouco isolado e tenho receio de deixar a casa. É em madeira exótica, do Brasil mas incombustível. É muito mais cara do que as de alvenaria mas muito mais confortável. Já tenho feito lá algumas festividades da Academia e as pessoas apreciaram. a A – Não tinha um projecto para construir uma casa no Algarve? A.N. - Tinha mas não me permitiram uma casa de madeira a não ser na serra. Também conhecia aquela região e os terrenos lá são muito mais baratos. a A – Qual o futuro da poesia e da Academia?
Enquanto puder vou mantendo a chama acesa
A.N. - Em relação a mim, concorro muito pouco e escolho muito bem os concursos. Em relação à Academia temos muitos projectos, um deles em Marselha, no próximo ano, com uma palestra, além de um sarau de poesia no Mosteiro da Batalha e em mãos mais uns livros. A transferência desta para o Algarve é muito problemática, até porque em Dezembro vamos ter eleições e pode haver outra direcção. Infelizmente eu sou cem por cento da Academia porque a direcção está no Algarve. É um grande esforço e a saúde nem sempre ajuda. a A – Teme pelo futuro da Academia? A.N. - Não é nada que me passe pela cabeça. Muita gente me diz que no dia em que eu não possa, ela acaba. Eu não queria que fosse assim mas há muita gente que não sabe do esforço, não só físico e intelectual mas económico. No último concurso da academia gastei 1600 euros do meu bolso. Foram distribuídos 196 prémios e até as menções honras tiveram um medalhão. Enquanto puder vou mantendo a chama acesa mas há quem considere que faço isto por obrigação porque tem o nome do meu pai. Eu não tenho um único prémio da Academia porque não posso concorrer. Aníbal Nobre será um nome que irá vencer o tempo porque os escritores e poetas são imortais.
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